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O Prazer de Ver Cristo Sofrer


O filme A Paixão do Cristo tem atraído multidões aos cinemas. Mas, afinal de contas, o que motiva tantas pessoas a assistirem um espetáculo que - para a maioria - trata-se de uma desnecessária peça de selvageria cinematográfica? No presente artigo procuramos lançar luzes sobre esta enigmática questão.

Há alguns anos fiz um artigo que exigiu um esforço hercúleo para ser elaborado. Tive que ler dezenas de exemplares de uma revista pseudo-evangélica (Ultimato) para escreve-lo. Não queria ser leviano nem lançar mão de argumentos que não pudessem ser provados. Resultou em um longo texto onde as notas das fontes citadas ocuparam boa parte da matéria.

 

Ao começar escrever sobre o filme A Paixão do Cristo, do cineasta américo-australiano Mel Gibson, não imaginava que estava diante de um desafio maior que aquele. A película e a ideologia do cineasta associadas à alienação das platéias acontece em um momento ímpar da história da humanidade. O Islamismo e o Anti-Semitismo nunca estiveram tão em alta.

 

O artigo, anteriormente pensado como simples, tem tomado dimensões gigantescas e resultou em três artigos publicados neste site.

 

No presente artigo gostaria de adaptar um texto publicado anteriormente no web-site nominimo.com.br. Curiosamente o autor, Ricardo Calil, tem sobrenome árabe. Embora não conhecendo o autor simpatizei de imediato com a visão que ele teve do filme. Creio que foi feliz nas observações.

 

Calil começa chamando a atenção para um estilo de filme, que fez bastante sucesso nos anos 70, tendo admiradores até hoje. São os "snuff movies".  Trata-se de um gênero cinematográfico em que as películas registram crimes reais: assassinatos, torturas, estupros. A equipe de produção não é apenas testemunha, mas também cúmplice e muitas vezes autora dos crimes - que são cometidos justamente para serem filmados. São, portanto, filmes ilegais que circulam de forma clandestina.

 

Com o passar do tempo percebeu-se que muitos desses filmes eram forjados. Os crimes, na verdade, eram falsos, meras encenações. Mesmo depois da descoberta seu público continuou fiel. No fundo, o que importava é que as imagens pareciam críveis ao espectador.

 

Dezenas de filmes de ficção já se inspiraram no tema: "A Tortura do Medo" (1960), de Michael Powell e "8 MM" (1999), de Joel Schumacher são alguns exemplos clássicos. Até mesmo um filme brasileiro foi feito: "Snuff Movies - Vítimas do Prazer" (1977), de Cláudio Cunha.

 

Ricardo Calil coloca "A Paixão do Cristo", de Mel Gibson, no rol dos "snuff movies". Considera, inclusive, ser o "mais caro, célebre e polêmico" filme do gênero. Hipoteticamente baseado na Bíblia, é o primeiro "snuff" épico, falado em línguas mortas e protagonizado por religiosos judeus e soldados romanos. Além disso, por razões óbvias, já se sabe de antemão que a morte do protagonista está sendo encenada - o que contraria as convenções desse tipo de filme. Mas, de resto, não há dúvidas de que "A Paixão do Cristo" é um "snuff movie" em sua essência. Isso já fica claro no conceito de Gibson para o filme: retratar as torturas sofridas por Jesus nas 12 últimas horas de sua vida da maneira mais realista possível.

 

Em conteúdo, o filme também se filia ao gênero. Não há propriamente um roteiro, apenas uma seqüência de barbaridades entremeadas por rápidos flashbacks. E as cenas são marcadas pela violência extrema: uma chicotada arranca a pele das costas da vítima e deixa suas costelas à mostra; enormes pregos perfuram suas mãos; uma lança é espetada em sua barriga, fazendo o sangue jorrar sobre seu algoz.

 

Mas a maior evidência de que estamos falando de um "snuff movie" é a relação que o cineasta estabelece primeiro com sua obra e depois com o espectador. Calil comenta que Gibson aborda seu material com evidente perversidade, que se manifesta na riqueza de detalhes repugnantes. E, para piorar, o cineasta pede a cumplicidade do público, exortando-o a partilhar as dores de Jesus.

 

Mais interessante do que o filme em si ou a polêmica em torno dele é o espantoso sucesso de público. Provavelmente a maioria dos espectadores assistiu A Paixão do Cristo movido pela curiosidade provocada com toda a controvérsia. Mas a produção também atraiu um grande número de cristãos que não costuma freqüentar o cinema (em um fenômeno parecido com o do filme do padre Marcelo Rossi aqui no Brasil).

 

Além disso, deu no New York Times, "A Paixão do Cristo" foi bastante visto por alguns grupos de exceção, como fãs de filmes de horror e homens interessados no caráter repulsivo das cenas de violência.

 

Por aqui, o advogado Jacob Pinheiro Goldberg chegou a pedir a censura do filme por anti-semitismo e deu uma das definições mais interessantes sobre o conteúdo: "um show de pornô-sadomasoquismo".

 

Vendo sobre este prisma, entende-se porque boa parte dos expectadores é formada justamente por fanáticos por "snuff movies". Muitos estão assistindo com o objetivo de, digamos, deixar seu espírito mais elevado, mas eles estão encontrando um filme que fala a seus instintos mais baixos. Talvez o segredo do sucesso do filme resida justamente aí: Gibson oferece emoções primárias e satisfaz plenamente quem as busca.

 

Tudo em "A Paixão do Cristo" é de um primarismo exemplar: o próprio conceito de que o filme é a interpretação mais fiel dos Evangelhos; a visão do cristianismo como um mundo de culpa pelo sofrimento de Jesus; o estilo pretensamente artístico de fusões e câmeras lentas; a operação comercial que inclui a venda de brincos e pingentes em forma de prego; e assim por diante.

 

Assim como em toda a obra de Gibson como diretor (e boa parte dela como ator), a marca principal de "A Paixão do Cristo" é a nostalgia de um mundo - e de um cinema - menos complexo. Onde seria mais fácil separar os bons dos maus, os corajosos dos covardes.

 

O que se destaca no Cristo de Gibson não é sua mensagem de amor ao próximo, mas sua posição diante daquilo que o cineasta encara como "estar do lado certo da história". Outro destaque do Cristo de Gibson não é seu caráter Redentor, mas sua resistência à dor. Ou seja, se observarmos bem, veremos que o Cristo de Gibson não é o Cristo bíblico, mas sim um Cristo cinematograficamente estereotipado. Trata-se de uma grosseira imitação de outros personagens interpretados pelo ator. Podemos ver neste Cristo o Martin Riggs da série "Máquina Mortífera", o Benjamin Martin de "O Patriota" e, talvez, William Wallace, de "Coração Valente".

 

De forma brilhante, Ricardo Calil termina falando que "A Paixão do Cristo" é um samba do cristão doido. "O que torna o filme tão perturbador", diz Calil, "é perceber que se trata de um produto da fé, ainda que doentia". Mais assustador ainda é ver que essa fé vem encontrando enorme ressonância junto ao público, muito dele formado por uma platéia de evangélicos.

 

Os originais "snuff movies" foram, via de regra, um fracasso junto ao público. Perigosamente, o primeiro "snuff movie religioso" da história do cinema é também o maior sucesso de bilheteria do ano. Lamentável.


Roberto Santos


2004-06-30 00:00:00

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