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A Incrível Vida do Pe. Marcial Maciel


El País
Padre Maciel sonhava em ser santo, mas acabará no 'inferno'

01/02/2010

A incrível vida do padre Marcial Maciel

El País
Juan G. Bedoya
Em Madri

O fundador dos Legionários de Cristo foi pederasta, teve filhos com várias mulheres e plagiou o livro de cabeceira do grupo. Tantos "pecados" prejudicam a beatificação de João Paulo 2º, seu grande protetor

Marcial Maciel sonhava em ser proclamado santo universal... e acabará nos infernos mais profundos de sua igreja. As últimas descobertas sobre a dupla e exagerada vida do famoso fundador dos Legionários de Cristo e do grupo sacerdotal Regnum Christi não deixa lugar para dúvidas, e isso que ainda não terminou a investigação ordenada há um ano por Bento 16. O que já se sabe é demolidor. O líder de um dos mais bem-sucedidos movimentos do novo catolicismo não foi só um notório pederasta e viciado em drogas. Também teve filhos -pelo menos quatro, talvez seis- com várias mulheres, plagiou descaradamente o livro de cabeceira da legião, intitulado "Saltério de Meus Dias", e impôs a toda a organização um quarto voto de silêncio para se proteger de denúncias. Um de seus antigos colaboradores o acusa inclusive de ter envenenado seu tio-avô, o bispo Guízar, que apoiou a bem-sucedida carreira eclesiástica do ambicioso sobrinho no convulso México dos anos 1930.

  • 30.11.2004 - AP

    O papa João Paulo 2º abençoa o padre Marcial Maciel em audiência especial no Vaticano

"Quanta sujeira na igreja!" -esse clamor valeu um pontificado ao então cardeal Joseph Ratzinger. Ele o pronunciou em uma via crúcis em abril de 2005, antes do conclave para eleger o sucessor de João Paulo 2º. O todo-poderoso prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (o antigo Santo Ofício da Inquisição) sabia do que falava. Os cardeais eleitores também. Sobre a mesa do papa anterior, Karol Wojtyla, haviam-se acumulado acusações de pederastia contra milhares de sacerdotes e também queixas pelo encobrimento desses delitos por alguns prelados nos EUA, Irlanda, Itália, Áustria e inclusive na Espanha. O alemão Ratzinger aparecia como o único dos reunidos com informação e autoridade suficientes para atacar essa situação.

O próprio João Paulo 2º não se livrava das críticas. Para citar só o caso do fundador dos Legionários, à mesa de trabalho do papa polonês haviam chegado durante anos centenas de denúncias sobre as andanças e desvios do padre Maciel. O pontífice as desprezou. Maciel era um de seus preferidos. Enchia praças e estádios de futebol nas viagens do líder católico pelo mundo, junto com outro movimento na moda, o Caminho Neocatecumenal do espanhol Kiko Argüello. Aquela proteção contra toda a lógica ameaça agora obscurecer a anunciada beatificação de João Paulo 2º, mesmo que não funcione a famosa e velha figura -desaparecida como tal- do advogado do diabo em todo processo de canonização.

Quando o ainda cardeal Ratzinger clamou contra a "sujeira" interna em sua igreja, os cardeais se convenceram de que era o homem a eleger. Dois dias depois o fizeram papa, em 19 de abril de 2005. Foi então que se começou a cavar o túmulo do até então intocável fundador dos Legionários. Uma das primeiras medidas anticorrupção do papa Bento 16, em maio de 2006, o atingiu onde mais doía. Maciel devia abandonar Roma apressadamente e retirar-se para seu México natal. Também devia deixar o poder nas mãos de algum de seus colaboradores. A decisão do Vaticano parecia humilhante -Maciel era obrigado a levar "uma vida reservada de oração e penitência, renunciando a qualquer forma de ministério público"-, mas não evitou o escândalo. Muito pouco castigo para acusações documentadas de abusos sexuais em vários países. Como desculpa, Roma apelou para a idade avançada do acusado, quase 90 anos. Maciel morreria pouco depois, em janeiro de 2008, no México. Assunto resolvido, suspiraram seus antigos amigos no Vaticano.

Enganavam-se totalmente. Além do clamor dolorido das vítimas, que puseram a boca no mundo pela benevolência de Bento 16, agora entravam em cena autoproclamados filhos e mulheres de Maciel, reclamando atenção e direitos. Tudo começou em Madri, aonde Maciel vinha com frequência, às vezes discretamente. Afinal, foi aqui que foi recebido com os braços abertos em 1941, logo depois de fundar no México o movimento dos Legionários de Cristo, com apenas 20 anos de idade. O ministro das Relações Exteriores da época, o democrata-cristão Alberto Martín-Artajo, foi o encarregado de apresentá-lo à sociedade franquista nacional-católica. Hoje os Legionários contam na Espanha com uma universidade -a Francisco de Vitoria em Madri-, vários seminários e centenas de colégios, entre muitas outras propriedades.

Os primeiros rumores sobre a vida dupla de Maciel provocaram uma revoada entre alguns legionários, abatidos principalmente pelas acusações de pederastia, que até Roma acatou oficialmente. Se seu adorado fundador conheceu mulher e tinha uma filha, isso espantava, segundo eles, as suspeitas do horrendo pecado de pedofilia. Assim, o que deveria ser administrado em sigilo total logo foi um clamor público, que vazou de dentro. Maciel não só teve aventuras amorosas, como em Madri vivia uma filha sua, com nome, sobrenome e um número concreto em luxuosos apartamentos na Calle de Los Madroños. A garota, já madura -a mãe morreu há anos-, chama-se Norma Hilda e fez um pacto de silêncio em troca de uma pensão vitalícia. Quem selou o acordo e cuidou de que a rocambolesca história acabasse aí foi o secretário de Estado do Vaticano, cardeal Tarcisio Bertone, durante uma visita semioficial à Espanha. Ocorreu nos primeiros dias de fevereiro do ano passado. O dinheiro não foi obstáculo. Há décadas que em ambientes hostis o grupo de Maciel é conhecido com ironia como os Milionários de Cristo.

  • 19.05.2005 - EFE

    O padre Marcial Maciel; novas investigações têm revelado os crimes cometidos pelo clérigo

Animado pelo sucesso do engano maquinado em Madri, Bento 16 tomou outra decisão com a esperança de abafar o escândalo. Ordenou que a investigação se estendesse a toda a organização. O argumento da medida era inatacável: se o fundador legionário havia levado uma vida de crápula, como é que ninguém de seu entorno o denunciou? Para encontrar respostas, o papa nomeou cinco "visitadores", todos bispos: Ricardo Blázquez, de Bilbao (Espanha); Giuseppe Versaldi, de Alessandria (Itália); Ricardo Watty, de Tebladpic (México); Ricardo Ezzati, de Concepción (Chile), e Charles Joseph Chaput, de Denver (EUA). Watty inspecionaria no México e na América Central; Chaput, os colégios legionários dos EUA e do Canadá; Versaldi, os da Itália, Israel, Coreia e Filipinas; Ezzati, os da América do Sul, e Blázquez, os da Europa, com exceção da Itália. Para facilitar seu trabalho, o papa, o único que pode atar e desatar essas coisas na confissão católica, aboliu o quarto voto da constituição legionária, que obriga os seguidores de Maciel a se confessar só com seus superiores e a guardar segredo dos conflitos internos.

Em princípio, a inspeção ordenada pelo papa foi tomada pelo sucessor de Maciel no comando da Legião e do Regnum Christi, o também mexicano Álvaro Corcuera, como um gesto de confiança. O próprio cardeal secretário de Estado, Bertone, tinha, havia dado origem ao equívoco na carta em que comunicou publicamente a decisão papal. "A visita apostólica é de fundamental importância e vale a pena dedicar-se a ela com amplitude de olhar e coração limpo. [Os legionários] sempre poderão contar com ajuda da Santa Sé para, através da verdade e da transparência, em um clima de diálogo fraterno, superar as dificuldades existentes", dizia a carta do cardeal ao sacerdote Corcuera.

O que as duas partes não poderiam prever então foi a enxurrada de notícias sobre a vida secreta de Maciel, agora sem controle possível. Para culminar, havia entrado em ação um advogado de prestígio, anunciando ações judiciais civis, que sempre exasperam o Vaticano. O letrado chama-se José Bonilla. Um de seus filhos foi submetido a abusos sexuais aos 3 anos em um colégio dos legionários e ganhou da Igreja Católica em um julgamento penal por esses fatos. Agora representa três dos autoproclamados filhos de Maciel, com nomes próprios e em busca de reconhecimento legal e indenizações. Trata-se de três homens, irmãos, de nacionalidade mexicana. O advogado afirma que Maciel teria outros três filhos, incluindo a espanhola Norma Hilda, cuja existência a Legião já reconheceu oficialmente. Outro filho viveria em Londres, e uma sexta filha morreu em um acidente de trânsito quando ia apanhar seu pai em um aeroporto de Paris. Norma Hilda, é claro, cursou sua carreira na Universidade Francisco de Vitoria em Madri, propriedade da Legião.

Os bispos visitadores que estão há quase um ano investigando as instituições e colégios dos Legionários de Cristo e do Regnum Christi não revelam suas averiguações. Também não desmentem qualquer notícia, apesar de serem publicadas diariamente, sobretudo na imprensa latino-americana. Em troca, admitem que os cinco prelados foram convocados a Roma em urgência para apresentar a Bento 16 um primeiro relatório. José Martínez de Velasco, redator-chefe da agência de notícias Efe e o primeiro que revelou os escândalos da Legião -publicou em 2002 o livro "Os Legionários de Cristo, o Novo Exército do Papa", e dois anos depois "Os Documentos Secretos dos Legionários de Cristo"-, afirma que a investigação está "praticamente concluída", apesar de haver muitas pessoas que pediram para ser recebidas para dar seu depoimento ou desabafar.

Martínez de Velasco afirma também que as acusações de pederastia contra Maciel praticamente não foram investigadas porque estavam suficientemente comprovadas. As primeiras denúncias sobre abusos sexuais em escolas da Legião chegaram ao Vaticano na década de 1950, durante o pontificado de Pio 12, também paternal protetor do padre mexicano. Este havia chegado a Roma apoiado por seu parentesco com um tio-avô, Rafael Guízar, bispo de Veracruz e em processo de canonização por Bento 16 como um dos heróis da perseguição e guerra dos Cristeiros no México revolucionário dos anos 1930. No entanto, um livro publicado no México com o título de "O Legionário", de Alejandro Espinosa, afirma que o bispo Guízar morreu envenenado com cianureto pelo próprio Maciel. "Guízar recebeu seu sobrinho em seu seminário clandestino, mas a boa relação entre ambos durou até que o bispo descobriu que o jovem Maciel estava pervertendo seu seminário com relações sexuais com outros estudantes. No dia em que o bispo morreu, havia tido uma discussão muito forte com Maciel", afirma.

Apoiado por informações e alguns testemunhos de sucesso e com confissões que o próprio Maciel lhe fez quando tinha com ele uma relação muito próxima, Espinosa montou essa hipótese. "A morte de monsenhor Guízar não ficou esclarecida. E anos depois, quando exumaram seu cadáver, foi encontrado incorrupto, com o cabelo avermelhado, tal como o cianureto deixa os corpos. Mas as pessoas foram pelo lado do milagre", afirma esse ex-legionário, que também foi submetido a abusos quando estudava no seminário que a Legião possui em Ontaneda (Espanha). Hoje vive retirado no campo mexicano, com dificuldades econômicas e ainda ameaçado por antigos correligionários.

Por outro lado, o defensor da causa da canonização de Guízar, o sacerdote Rafael González Hernández, considera a história absurda. "Monsenhor Guízar morreu em 1938 por causa de uma insuficiência cardíaca e uma crise de diabetes. Tinha 60 anos e já era um ancião decrépito e acabadíssimo, pois gastou sua vida a serviço dos fiéis. Efetivamente, 12 anos depois de sua morte, em 1950, seus restos foram exumados e encontrados incorruptos", afirma.

A verdade é que, com informações daqui e dali, mais o que já lhe trouxeram os visitadores, o papa tem dados suficientes sobre a situação da Legião de Cristo e sobre as acusações contra o fundador e alguns de seus colaboradores. A decisão que adotará será conhecida em março próximo. Segundo Martínez de Velasco, o Vaticano se debate entre três opções: dissolver a congregação, proceder a sua refundação ou designar um comissário pontifício que conduza a Legião a um Capítulo Geral de renovação total.

Desde a dissolução dos jesuítas em 1773 por Clemente 14, forçado pelos reis da França, Espanha, Portugal e das duas Sicílias - por motivos de poder, portanto -, a Igreja Católica não havia enfrentado um caso igual, desta vez por sujos escândalos sexuais e financeiros. Bento 16, ele mesmo acusado de não ter atuado com diligência quando comandava a Congregação para a Doutrina da Fé, enfrenta o pior momento de seu pontificado, sobretudo se a investigação interna confirmar uma passividade culposa de João Paulo 2º por amizade pessoal com Maciel.


Jornal El Pais, Notícias UOL

Pr. José Nogueira


2010-01-02 00:0

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